sexta-feira, 25 de outubro de 2024

CAFEÍNA - SEXTA-FEIRA

Ouço gotas do chuveiro:
torneira mal fechada.
Ouço o silêncio da casa pela manhã
mas os gritos dentro de mim
não deixam focar em nada.

Mais contas chegam
pelo correio, pelo e-mail
contas que não tenho fundos para saldar
homem sem soldo
mas com saudade de tanta coisa...

Uma brisa me acaricia
entrando pela porta da cozinha
não sei se traz esperança
ou mais tempestade
previsão de tempo incerto.

Os lençóis não se dobram sozinhos
os legumes esperam à pia pelo corte
uma parte da mesa do café ainda posta
em que poste nas redes o pouco tédio
minha abundante matéria poética.

Agora é o sol que estoura a umidade
da fina e barulhenta chuva de ontem
é mais um pretexto para abafar o ar
abafar a voz e todas as vontades
que emanam nessa viçosa sexta-feira.

Ligo o noticiário.
Notícias de ontem me engulham
corro à caneta e nela encontro o afago
que busquei pela manhã
mas a dura rotina capital me negou.

Olho para a louça por lavar
e penso nas repetições tayloristas
olho para tudo que deve ser feito
e não encontro mais que um alento
da espera por repetir-se os afazeres.

Sirvo-me um café, morno:
já não tem o mesmo gosto das seis horas da manhã
a acidez corta-me as vísceras
o amargo corta o doce da poesia
e a cafeína me bota em marcha para a vida: me levanto.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

TODO DIA

Um poema todo dia
para todo dia
amassar o duro
e de pouco em pouco
derrubar o muro

Todo dia um poema
descolar um tema
que me traga vida
e assim torná-la
tanto mais querida

Todo dia esse grito manso
esse: - Não me canso!
tentar vencer a dor
a indiferença
e o pouco amor

Parece fácil todo dia
mas não é todo dia
que vencer essa parcial morte
é ofício fácil
barbear sem corte

Mas sigo remando todo dia
e todo o dia
me inunda a esperança
de grafar no branco
a viva criança

que por vezes sufoco
mirando o foco
na adulta dureza
mantando incauto
a viva pureza

que sucumbe às vezes todo dia
mas todo dia
nasce novamente
de teimosia
repetidamente

Vai nascendo todo dia
esse suspiro: poesia
respiração deleitosa
insistente todo dia
existência resistência

sem rima às vezes todo dia
verso torto
desaprumado: torta esquadria
mas que luta estar vivo
a cada e todo dia.