Ouço gotas do chuveiro:
torneira mal fechada.
Ouço o silêncio da casa pela manhã
mas os gritos dentro de mim
não deixam focar em nada.
Mais contas chegam
pelo correio, pelo e-mail
contas que não tenho fundos para saldar
homem sem soldo
mas com saudade de tanta coisa...
Uma brisa me acaricia
entrando pela porta da cozinha
não sei se traz esperança
ou mais tempestade
previsão de tempo incerto.
Os lençóis não se dobram sozinhos
os legumes esperam à pia pelo corte
uma parte da mesa do café ainda posta
em que poste nas redes o pouco tédio
minha abundante matéria poética.
Agora é o sol que estoura a umidade
da fina e barulhenta chuva de ontem
é mais um pretexto para abafar o ar
abafar a voz e todas as vontades
que emanam nessa viçosa sexta-feira.
Ligo o noticiário.
Notícias de ontem me engulham
corro à caneta e nela encontro o afago
que busquei pela manhã
mas a dura rotina capital me negou.
Olho para a louça por lavar
e penso nas repetições tayloristas
olho para tudo que deve ser feito
e não encontro mais que um alento
da espera por repetir-se os afazeres.
Sirvo-me um café, morno:
já não tem o mesmo gosto das seis horas da manhã
a acidez corta-me as vísceras
o amargo corta o doce da poesia
e a cafeína me bota em marcha para a vida: me levanto.