domingo, 30 de novembro de 2025

MOLÉSTIA NECESSÁRIA

Um cansaço da ausência
me dá a mão na tarde que se põe
e que se opõe
aos afazeres
à minha vontade;
minha vontade
que vaga entre a espera
e as incertezas
daquilo que não sei
mas muito desconfio
nesse fio
cortante
em que caminho, ou tropeço
ou finjo me equilibrar
em minha opaca poesia,
na falta de emprego,
no emprego inútil do tempo
que só escorre
e só pára na memória
 
Precisaria de três vidas para gritar tudo que me aflige
e mais todas as eras para que tornasse a voz;
tenho opiniões a todo o tempo
mas não importa
nenhum ouvido ouviria
nenhuma vista veria
o que eu quero
ou queria
um futuro imperfeito
que não aconteceria.
 
Nessas flexões só quem enverga sou eu
não sei se quebro
se alquebrado
se resisto
se mesmo existo
ou se forço uma presença incômoda
nesse cômodo temporário da existência.
 
O vento roda lá fora
e com a cabeça rodando
faço versos em espiral
linhas sem medida
ou métrica
sem rima
e duvidosa estética;
suspiro fechado e sufocado por barulhos que não falam comigo
martelar de ferros
e versos na minha cabeça
uma lixadeira
uma serra
motores ritmados na rua
queimando diesel ou outro poluente
que mesmo sem respirar
me envenenam
devagar.
 
Talvez seja isso que me oprime nesse entardecer
no fim, nem tudo é triste
é apenas o sol que se esconde por doze horas
no outro dia, às vezes, volta acompanhado
de vento frio
de nuvens que o escondem
mas é certeza que está lá
atrás de tudo que nos aniquila
SOLfejando
sua música silenciosa
seu fôlego e suspiro
que nos contamina
de vida
e daquela moléstia necessária
também chamada esperança.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

FÁCIL ESCAPE

 "Hoje você não me escapa"

tenho escapado quase sempre
embora presa fácil
embora presa
embora fácil
embora escape
embora nós
quase sempre não

hoje eu te escapo
amanhã também
o difícil é ser presa
o difícil é ser fácil
ser presa difícil
não é fácil

hoje você me escapa
como escapou ontem
como presa difícil
para um caçador frágil
para um escapar fácil
quando hoje, embora escape
queria ser presa.


sexta-feira, 25 de outubro de 2024

CAFEÍNA - SEXTA-FEIRA

Ouço gotas do chuveiro:
torneira mal fechada.
Ouço o silêncio da casa pela manhã
mas os gritos dentro de mim
não deixam focar em nada.

Mais contas chegam
pelo correio, pelo e-mail
contas que não tenho fundos para saldar
homem sem soldo
mas com saudade de tanta coisa...

Uma brisa me acaricia
entrando pela porta da cozinha
não sei se traz esperança
ou mais tempestade
previsão de tempo incerto.

Os lençóis não se dobram sozinhos
os legumes esperam à pia pelo corte
uma parte da mesa do café ainda posta
em que poste nas redes o pouco tédio
minha abundante matéria poética.

Agora é o sol que estoura a umidade
da fina e barulhenta chuva de ontem
é mais um pretexto para abafar o ar
abafar a voz e todas as vontades
que emanam nessa viçosa sexta-feira.

Ligo o noticiário.
Notícias de ontem me engulham
corro à caneta e nela encontro o afago
que busquei pela manhã
mas a dura rotina capital me negou.

Olho para a louça por lavar
e penso nas repetições tayloristas
olho para tudo que deve ser feito
e não encontro mais que um alento
da espera por repetir-se os afazeres.

Sirvo-me um café, morno:
já não tem o mesmo gosto das seis horas da manhã
a acidez corta-me as vísceras
o amargo corta o doce da poesia
e a cafeína me bota em marcha para a vida: me levanto.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

TODO DIA

Um poema todo dia
para todo dia
amassar o duro
e de pouco em pouco
derrubar o muro

Todo dia um poema
descolar um tema
que me traga vida
e assim torná-la
tanto mais querida

Todo dia esse grito manso
esse: - Não me canso!
tentar vencer a dor
a indiferença
e o pouco amor

Parece fácil todo dia
mas não é todo dia
que vencer essa parcial morte
é ofício fácil
barbear sem corte

Mas sigo remando todo dia
e todo o dia
me inunda a esperança
de grafar no branco
a viva criança

que por vezes sufoco
mirando o foco
na adulta dureza
mantando incauto
a viva pureza

que sucumbe às vezes todo dia
mas todo dia
nasce novamente
de teimosia
repetidamente

Vai nascendo todo dia
esse suspiro: poesia
respiração deleitosa
insistente todo dia
existência resistência

sem rima às vezes todo dia
verso torto
desaprumado: torta esquadria
mas que luta estar vivo
a cada e todo dia.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

RESGATE

Em tua Visita me resgato
Acho a água:
a que limpa
a que mata a sede
Eu, que sedento
de minha ausência
de tuas ausências
diria: saudade
Tua Visita chega numa manhã de inverno
me  resgata para um desembarque à tarde
a mala cheia
de rugas e cabelos brancos
tantas estórias ou histórias?
nossos sumiços: lacunas
preenchidas com o pouco tanto
fartura ancestral apenas em nosso timbre de voz
sem palavras
apenas presença
que soçobra a falta de assunto
e ocupa todos os espaços
sem precisar de mais que isso.
Santa Visita repentina
que reaviva poema antigo
e faz nascer novo
que reacende
paga tributo e de novo:
resgata
esse convívio de hiatos
latente lembrança
que se reata ao mínimo toque de um verso.
Tua Visita é estopim
reação quântica
nasce nas varandas ao cair da noite
e queima, sem estardalhaço,
por todo sempre,
dentro de nós.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

BRUTO LIRISMO

Reencontrei-me com os versos de Carlos
ando saudoso dos versos de Cecília
de quanto em vez lembro dos versos de Manuel
e já por muito tempo tenho sentido falta de mim
que nem sei por onde tenho andado

tanta entrega
tanta doação
e o pagamento vem em parcelas de salário
qual de um professor Raimundo

mas o certo era não esperar nada

apenas mergulhar no encontro das canções de Carlos
na saudade dos versos de Cecília
nas citações de Manuel
e na estupefação
do lirismo bruto de Bukowski.

sábado, 13 de maio de 2023

OGRO CALADO

Se não faço
arco por não feito
que de responsável é o meu quinhão

se busco fazer
ativo ou altivo: mesmo resultado
uma reprovação

ainda que caminhe por esse vale
já não vale
ou eu não valho

qualquer atitude
não há que mude
a pronta opinião.

Uma queixa nunca
jamais
já me queixei demais

será sentença
mais que certa
que o mesmo não certo

vai no meu ser empenado
sem vontade
e calado

perfeita emulação
do perfeito
sem atrito

ou fricção
que a harmonia do esperar
é preceito

da básica e boa
compreensão
do imperfeito.

No mais
é viver assim desse jeito
que querer outro

é certeza de malogro
ou viver aos berros
feito ogro.